A palavra da vida e da morte é: dinheiro.
Pois que hoje, poucos minutos antes do meu almoço, recebo um telefonema do banco do qual sou cliente, segundo me disse Djalma, há 4 anos:
-Senhora Fernanda, aqui é o Djalma do banco X e estamos ligando para uma proposta interessantíssima para a senhora.
-Hm.
-A senhora passa a ter cobertura de 300 reais por dia, 300 reais POR DIA, em caso de hospitalização. Acidente automobilístico, acidente aéreo, fraturas, amputagens, problemas na gravidez, câncer e inclusive UTI, U-TÊ-Í! Pagando apenas dezenoveenoventareaismensais a senhora pode ficar tranquila no hospital. Para simular o benefício, imagine a seguinte situação: a senhora sofre um acidente de carro e vai para a UTI, fica enternada 10 dias e no final a senhora recebe diretamente na sua conta corrente o montante total de: três mil reais, TRÊS MIL REAIS, senhora Fernanda, em apenas 10 dias, 10 dias na UTI! Podemos estar enviando a documentação ainda hoje para a senhora conferir todos os benefícios oferecidos por esse inovador plano que o banco X oferece aos seus clientes preferenciais. Posso estar enviando a documentação para a senhora, senhora Fernanda?
-Não.
-Mas por quê, senhora Fernanda? Olha, este é um pacote exclusivo para os clientes do X, inovador e moderno que atende todas as necessidades em caso câncer, problemas de gravidez, UTI... E por apenas dezenoveenoventareaismensais... Posso estar enviando a documentação para a senhora analisar com mais calma?
-Não. Não tenho interesse.
Veja, que não estou aqui reclamando e falando por um sentimentalismo não-prático (pô, todo mundo pode ter câncer, sofrer um acidente de carro ou ter as mãos amputadas... claro!). Mas é esse jeito. Esse jeito de querer vender a propaganda da minha morte para que, pagando, eu tenha mais segurança da minha vida.
E meu suco gástrico esquenta não só por causa do banco, mas também porque um ser humano se torna tão imbecil ao ponto de passar a mão no telefone e dizer essa verborragia imunda e insensível, essa poética burocrática, esse bem-querer com parcelas mensais de 19.90, e aceitar ganhar dinheiro para se tornar gradualmente em algo que não é mais nem gente (por que não sente), nem bicho (porque acumula dinheiro) nem coisa (porque pensa). É algo novo. Um ser inovador. Inovador...
16/02/2009
15/02/2009
O que é a polícia?
Moro na Praça General Araripe de Faria.
Este fato passava despercebido em minhas reflexões, já que é tão cotidiano ter de dizer e escrever meu endereço– preenchimento de formulários para bancos, vídeo locadora, hospitais, sorteios de carros no auto-posto, para um amigo ou parente old fashion que gosta de enviar cartas, etc. – que morar na praça General X,Y ou Z nunca foi motivo de crispas. Mas, na sacada do apartamento, que tem vista para a praça, me ocorreu: eu moro numa praça cujo nome homenageia um GENERAL. Este fato até então passava irrelevantemente sobre minhas telhas.
Que muitas praças, ruas, avenidas, rodovias, pontes, parques e teatros homenageiem militares não é novidade no Brasil. A questão do merecimento e do reconhecimento na real não é uma questão, nunca suscita como tal, e é uma realidade pronta: "o mundo já estava assim quando me dei conta dele ou do que já fizeram dele".
Se o militar, cujo nome é celebrado por meio da nomeação de uma ponte, torturou centenas de compatriotas, matou outras tantas pessoas covardemente e aceitou suborno e agrados ilícitos, ele certamente não fora homenageado por tais fatos. Então fora homenageado por quais fatos? E por quem?
Eu nunca soube de nenhuma votação ou sequer discussão sobre a nomeação de ruas, avenidas, praças, parques, museus, teatros etc. Nunca ninguém me consultou.
Esta questão pode ser considerada como "é só um nome de ponte, tem gente morrendo de fome por aí", mas este ponto revela, ainda que parcialmente, qual o valor dado à polícia e como ingenuamente ou ignorantemente entendemos os serviços militares.
Muito embora eu não seja historiadora, estudiosa das histórias e estórias trazidas do passado até aqui, contadas sempre por um interesse, por um povo, por uma crença, por um poder (parcialidades irreversíveis), confio que estas informações sejam verdadeiras: desde civilizações bastante remotas, até nos tempos de escravidão com chibata e pau-de-arara, os que tinham mais poder compravam direta ou indiretamente a tão necessária segurança.
Pois que o senhor medieval, rico dono de terra, tinha seus cavaleiros para evitar que seu feudo fosse invadido ou que seus servos fugissem; esses cavaleiros recebiam benefícios que os servos que cultivavam a terra não recebiam, mas não tinham o poder que o senhor feudal tinha. Eles ganhavam a vida protegendo um cara rico, matando e caceteando os caras pobres, sendo ele próprio um cara pobre de origem pobre.
No período de escravidão (quando ainda era escravidão declarada e não a atual, velada) tínhamos o capitão-do-mato: um negro pobre, que andava armado e à cavalo, que trabalhava para o branco rico, protegendo sua propriedade e seus "bens", vigiando e capturando outros negros. Ele era um empregado público, cuja função era capturar (não-amistosamente) os negros escravizados. Em suma, ele era um cara negro e pobre, que trabalhava para o cara branco e rico, oprimindo outros caras negros e pobres.
Obviamente a questão aqui não é negro versus branco, rico versus pobre, mas é mostrar a origem daquilo que hoje chamamos de "polícia", de "força militar", de "proteção".
Percebemos que a proteção nunca fora para os que precisavam ser protegidos. Os "protetores" não tinham como função proteger as pessoas de estupros, privações, torturas e morte. A proteção só era destinada àqueles que tinham injustamente mais do que deveriam ter, que tinham mais poder, mais dinheiro e que de tanto terem temiam perder. Não se trata de uma proteção à vida, mas sim de uma proteção dos bens, do dinheiro, do poder e da manutenção do poder. Se fosse uma proteção à vida, que se protegesse aqueles que trabalhavam de sol a sol e colocavam os alimentos do solo à mesa, aqueles que eram oprimidos, humilhados, injustiçados.
Pois que, olhando a placa da minha rua, me dei conta que eu nunca havia pensado, por mim mesma, o que é a polícia, o que ela representa e a quem ela representa. A origem da nossa polícia é esta: a violência, a força, o poder financeiro e político constroem o que é entendido como "segurança" e "proteção", que são destinadas a zelar por aqueles que detêm poder.
A polícia da qual falamos é filha daquele capitão-do-mato, que oprimia gente como ele, em troca de ter um pedaço parco e sujo de poder. A polícia em questão protege políticos e bancos, fuzila adolescentes, extermina em massa, agride grevistas que buscam melhoria em seus salários de maneira lícita, espanca adolescentes que se manifestam em passeatas, abusa do poder para obter regalias, corrompe e se deixa corromper. Esta suposta entidade protetora usufrui de sua influência, do respeito, da confiança e do poder que a maior parte da população dá a ela, de maneira malevolente, atentando contra a vida das pessoas não-poderosas, como se pudessem gozar de um direito divino de vida e morte, ou de poder escolher quem merece ou não proteção.
Quem são esses "ex-cidadãos" que deixam de encarar seus compatriotas como cidadãos, e passam a tratar aos não-poderosos como se fôssemos empecilho à ordem? Esta ordem beneficia a quais pessoas? Estas algemas são utilizadas contra quais bandidos? Esta polícia protege os interesses de quem?
Por que um policial fuzila mendigos na rua e não fuzila o político que desvia o dinheiro que criaria escolas, hospitais, facilitaria o acesso à moradia e evitaria que estes mendigos estivessem nas ruas?
Por que um policial atira bombas de "efeito moral" (que moral é essa?!) numa manifestação de professores do ensino público que reclamam por melhorias nas escolas?
Por que um policial protege o palácio do governo e atira contra o povo que reclama por ser injustiçado?
Por que, alguns seres humanos, ainda se rebaixam ao nível de tentar lamber o resto podre deste poder injusto, aumentando ainda mais a vala que enterra o povo para aumentar a altura do pedestal do poder de uma minoria tão devassa?


Polícia de SP e universitários (2007)
Este fato passava despercebido em minhas reflexões, já que é tão cotidiano ter de dizer e escrever meu endereço– preenchimento de formulários para bancos, vídeo locadora, hospitais, sorteios de carros no auto-posto, para um amigo ou parente old fashion que gosta de enviar cartas, etc. – que morar na praça General X,Y ou Z nunca foi motivo de crispas. Mas, na sacada do apartamento, que tem vista para a praça, me ocorreu: eu moro numa praça cujo nome homenageia um GENERAL. Este fato até então passava irrelevantemente sobre minhas telhas.
Que muitas praças, ruas, avenidas, rodovias, pontes, parques e teatros homenageiem militares não é novidade no Brasil. A questão do merecimento e do reconhecimento na real não é uma questão, nunca suscita como tal, e é uma realidade pronta: "o mundo já estava assim quando me dei conta dele ou do que já fizeram dele".
Se o militar, cujo nome é celebrado por meio da nomeação de uma ponte, torturou centenas de compatriotas, matou outras tantas pessoas covardemente e aceitou suborno e agrados ilícitos, ele certamente não fora homenageado por tais fatos. Então fora homenageado por quais fatos? E por quem?
Eu nunca soube de nenhuma votação ou sequer discussão sobre a nomeação de ruas, avenidas, praças, parques, museus, teatros etc. Nunca ninguém me consultou.
Esta questão pode ser considerada como "é só um nome de ponte, tem gente morrendo de fome por aí", mas este ponto revela, ainda que parcialmente, qual o valor dado à polícia e como ingenuamente ou ignorantemente entendemos os serviços militares.
Muito embora eu não seja historiadora, estudiosa das histórias e estórias trazidas do passado até aqui, contadas sempre por um interesse, por um povo, por uma crença, por um poder (parcialidades irreversíveis), confio que estas informações sejam verdadeiras: desde civilizações bastante remotas, até nos tempos de escravidão com chibata e pau-de-arara, os que tinham mais poder compravam direta ou indiretamente a tão necessária segurança.
Pois que o senhor medieval, rico dono de terra, tinha seus cavaleiros para evitar que seu feudo fosse invadido ou que seus servos fugissem; esses cavaleiros recebiam benefícios que os servos que cultivavam a terra não recebiam, mas não tinham o poder que o senhor feudal tinha. Eles ganhavam a vida protegendo um cara rico, matando e caceteando os caras pobres, sendo ele próprio um cara pobre de origem pobre.
No período de escravidão (quando ainda era escravidão declarada e não a atual, velada) tínhamos o capitão-do-mato: um negro pobre, que andava armado e à cavalo, que trabalhava para o branco rico, protegendo sua propriedade e seus "bens", vigiando e capturando outros negros. Ele era um empregado público, cuja função era capturar (não-amistosamente) os negros escravizados. Em suma, ele era um cara negro e pobre, que trabalhava para o cara branco e rico, oprimindo outros caras negros e pobres.
Obviamente a questão aqui não é negro versus branco, rico versus pobre, mas é mostrar a origem daquilo que hoje chamamos de "polícia", de "força militar", de "proteção".
Percebemos que a proteção nunca fora para os que precisavam ser protegidos. Os "protetores" não tinham como função proteger as pessoas de estupros, privações, torturas e morte. A proteção só era destinada àqueles que tinham injustamente mais do que deveriam ter, que tinham mais poder, mais dinheiro e que de tanto terem temiam perder. Não se trata de uma proteção à vida, mas sim de uma proteção dos bens, do dinheiro, do poder e da manutenção do poder. Se fosse uma proteção à vida, que se protegesse aqueles que trabalhavam de sol a sol e colocavam os alimentos do solo à mesa, aqueles que eram oprimidos, humilhados, injustiçados.
Pois que, olhando a placa da minha rua, me dei conta que eu nunca havia pensado, por mim mesma, o que é a polícia, o que ela representa e a quem ela representa. A origem da nossa polícia é esta: a violência, a força, o poder financeiro e político constroem o que é entendido como "segurança" e "proteção", que são destinadas a zelar por aqueles que detêm poder.
A polícia da qual falamos é filha daquele capitão-do-mato, que oprimia gente como ele, em troca de ter um pedaço parco e sujo de poder. A polícia em questão protege políticos e bancos, fuzila adolescentes, extermina em massa, agride grevistas que buscam melhoria em seus salários de maneira lícita, espanca adolescentes que se manifestam em passeatas, abusa do poder para obter regalias, corrompe e se deixa corromper. Esta suposta entidade protetora usufrui de sua influência, do respeito, da confiança e do poder que a maior parte da população dá a ela, de maneira malevolente, atentando contra a vida das pessoas não-poderosas, como se pudessem gozar de um direito divino de vida e morte, ou de poder escolher quem merece ou não proteção.
Quem são esses "ex-cidadãos" que deixam de encarar seus compatriotas como cidadãos, e passam a tratar aos não-poderosos como se fôssemos empecilho à ordem? Esta ordem beneficia a quais pessoas? Estas algemas são utilizadas contra quais bandidos? Esta polícia protege os interesses de quem?
Por que um policial fuzila mendigos na rua e não fuzila o político que desvia o dinheiro que criaria escolas, hospitais, facilitaria o acesso à moradia e evitaria que estes mendigos estivessem nas ruas?
Por que um policial atira bombas de "efeito moral" (que moral é essa?!) numa manifestação de professores do ensino público que reclamam por melhorias nas escolas?
Por que um policial protege o palácio do governo e atira contra o povo que reclama por ser injustiçado?
Por que, alguns seres humanos, ainda se rebaixam ao nível de tentar lamber o resto podre deste poder injusto, aumentando ainda mais a vala que enterra o povo para aumentar a altura do pedestal do poder de uma minoria tão devassa?
Polícia de SP e universitários (2007)
13/02/2009
Toalha de mesa
Hoje, tirando a toalha de mesa da minha casa, me lembrei de 3 situações iguais porém distintas:
- Fernanda! Cuidado pra não sujar a toalha de mesa da sua avó!
- (ahn?) (ahnnnn!) (...) Tá, mãe.
(10 anos depois)
-Fernanda! Olha a toalha, minha filha!
- Tááááá, mãe!!!!!( uuhhhhhh!!!! ) (porra, toalha serve pra quê, senão para não sujar a mesa?! toalha serve para SUJAR A TOALHA, que é muito mais fácil de limpar do que toooda a mesa! Chata!)
(mais 10 anos depois)
-Bernardo, cuidado quando for tirar isso (jogo americano) porque senão vai cair sujeira na toalha e vai dar trabalho lavar.
(17 segundos depois)
%&&(/(/"&%§%&!"§BZGBEZ(H!"(EG!&"G %%&!$&%"&§!!!!)(=)§/$)/
Que que eu tô falando uma coisa dessas?!?! Que horror!!!
(...)
Mas realmente vai sujar a toalha e vai ser um saco lavar isso.
(...)
Meu deus... tô ficando igual à minha mãe.
(...)
Não, o que está acontecendo agora é que só depois de 20 anos eu pude entender a minha pobre mãe. E acontece que só agora eu tenho a mesma idade que ela tinha quando eu tinha 5 anos e percebi pela primeira vez na vida que pode acontecer de uma toalha de mesa sujar e que isso não é desejável, mas que mesmo não sendo desejável ela está lá para isso.
Não, eu não fui clara ainda.
O que eu quero dizer é que agora eu entendo.
Minha capacidade de me expressar por meio da escrita é totalmente insuficiente para que eu possa explicar o que eu entendi. Mas foi tal entendimento e com tal força que as tripas se movem apertadamente no meu interior, entre felizes e enternecidas, rejuvenescidas e maduras.
E agora eu não tenho mais como pedir desculpas para a minha mãe por eu ter sido ignorante. Porque esta é uma situação tão-tão pequenininha e aparentemente sem importância, que ela não entenderia. Se eu mesma não consigo explicar, como ela poderia me explicar que ela entende? Ou talvez sim... Talvez ela me entenda. :)
*******
De tão densa
e de tão intensa
morreu de tanto calar.
- Fernanda! Cuidado pra não sujar a toalha de mesa da sua avó!
- (ahn?) (ahnnnn!) (...) Tá, mãe.
(10 anos depois)
-Fernanda! Olha a toalha, minha filha!
- Tááááá, mãe!!!!!( uuhhhhhh!!!! ) (porra, toalha serve pra quê, senão para não sujar a mesa?! toalha serve para SUJAR A TOALHA, que é muito mais fácil de limpar do que toooda a mesa! Chata!)
(mais 10 anos depois)
-Bernardo, cuidado quando for tirar isso (jogo americano) porque senão vai cair sujeira na toalha e vai dar trabalho lavar.
(17 segundos depois)
%&&(/(/"&%§%&!"§BZGBEZ(H!"(EG!&"G %%&!$&%"&§!!!!)(=)§/$)/
Que que eu tô falando uma coisa dessas?!?! Que horror!!!
(...)
Mas realmente vai sujar a toalha e vai ser um saco lavar isso.
(...)
Meu deus... tô ficando igual à minha mãe.
(...)
Não, o que está acontecendo agora é que só depois de 20 anos eu pude entender a minha pobre mãe. E acontece que só agora eu tenho a mesma idade que ela tinha quando eu tinha 5 anos e percebi pela primeira vez na vida que pode acontecer de uma toalha de mesa sujar e que isso não é desejável, mas que mesmo não sendo desejável ela está lá para isso.
Não, eu não fui clara ainda.
O que eu quero dizer é que agora eu entendo.
Minha capacidade de me expressar por meio da escrita é totalmente insuficiente para que eu possa explicar o que eu entendi. Mas foi tal entendimento e com tal força que as tripas se movem apertadamente no meu interior, entre felizes e enternecidas, rejuvenescidas e maduras.
E agora eu não tenho mais como pedir desculpas para a minha mãe por eu ter sido ignorante. Porque esta é uma situação tão-tão pequenininha e aparentemente sem importância, que ela não entenderia. Se eu mesma não consigo explicar, como ela poderia me explicar que ela entende? Ou talvez sim... Talvez ela me entenda. :)
*******
De tão densa
e de tão intensa
morreu de tanto calar.
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